Dragonfly
Capítulo 1
A luz do sol foi o despertador de Yan naquela
manhã, queimando amigavelmente suas pálpebras, quase sussurrando um “acorde” a
cada brisa.
Com as cortinas
que dormiram abertas ainda escancaradas iluminando o quarto, ele, em seu estado
de completo sono e cansaço, olhou ao redor. Ao seu lado uma esbelta jovem
morena repousava com metade do corpo coberto pela suave colcha de cetim, a pele
nua e exposta, arrepiada pela suave brisa que agora entrava no quarto. No chão,
garrafas de vinho barato jaziam vazias, misturadas a roupas que foram jogadas aos
cantos em algum momento da noite anterior. Noite essa da qual ele não se
lembrava, novamente.
Respirando fundo
e distraindo-se com nada em especial, ele se levantou, indo em direção aos
agora trapos jogados no chão, úmidos de álcool, e os vestiu silenciosamente
para não acordar a mulher. Ele não sabia seu nome, nem onde se conheceram, e
não ficaria para perguntar, só faria o que sempre fez: ir embora, viajar para a
próxima cidade e, para não soar insensível, deixar um simplório bilhete, mas
com uma mensagem indireta de “Não me procure” no fim.
Yan não era um
homem de negócios, ganhava o suficiente para si próprio e vivia bem, porém,
contudo e, entretanto, era um nômade, mudava-se de quinze em quinze dias, tinha
toda uma carreira em sua frente com a explosão dos shows de mágica, e não
poderia correr o risco de se prender a um relacionamento e pôr tudo a perder.
Ter uma família então? Estava tão longe de seus planos quanto ele de sua casa.
E assim continuaria, afastando-se cada vez mais, trilhando uma rota para
qualquer lugar, sorrindo a qualquer resultado que viesse; ninguém mais o
esperava na porta ao fim da tarde, nem o acordava com um sorriso de manhã, e
sua vida havia tornado-se tão fútil superficial e vazia que nem ele mesmo
acreditava no que estava fazendo consigo mesmo.
Bebedeiras após
os shows e prostitutas -até moças de família em alguns casos- já faziam parte
da rotina. Ele arriscava sua vida, escapava nos últimos três segundos ou fazia
movimentos em três milésimos, surpreendia as pessoas, e ia embora.
“O grande show vai começar!”, Yan gritava e sorria resplandecente a todos aqueles que o encaravam da platéia, enquanto interiormente, sua alma clamava por socorro, ou apenas por mais um cigarro. Ele estava indo cada vez mais para o fundo do poço.
A porta batendo
talvez tenha acordado a mulher que ainda estava na cama, ele não sabia, mas
fora embora sem olhar para trás, abriu a porta do carro e deu a partida.
Deixaria para mergulhar em arrependimentos e afogar mágoas depois, quando
estivesse fora do alcance de olhares curiosos.
...
Já era quase
noite, e Pietro havia acabado de tirar a poeira dos últimos livros quando o
sino da porta tocou e um sorridente homem entrou por ela.
O já velho e
calvo Ewan carregava uma caixa cheia até o topo, quase se abrindo no fundo de
tão pesada. Respirando pesadamente, ele colocou-a no balcão, logo tirando os
lacres dos lados e puxando todos os livros que estavam lá dentro. Ele falava
sem parar sobre novas edições e aumento de preços, enquanto Pietro só conseguia
rir da animação que surgira repentinamente quando o peso fora tirado dos braços
do outro.
Ewan “adotara”
Pietro e seu irmão mais novo, Igor, vários anos antes, numa noite chuvosa e fria,
quando os irmãos bateram á porta de sua livraria. A história contada por eles
era confusa e até então o velho não conseguia entender muito bem como os dois
foram parar ali, mas preferia não tocar no assunto. Os meninos tinham sete e
treze anos na época, e quando Pietro fez 18, recebera a casa onde Ewan morava.
O mesmo passou a viver na livraria, em quartos improvisados nos fundos, para
vigiar o lugar e se despedir de seus últimos anos de vida perto de seus amados
livros.
“Amanhã nós
resolvemos toda a organização, vá pegar seu irmão na escola.” Ewan disse
sorridente e Pietro comemorou internamente ao ouvir tais palavras, estava
realmente exausto. Então pegou sua mochila pendurada na parede entre inúmeros
mapas e partiu, fazendo o estridente sino tocar outra vez.
A chuva caía suave
do lado de fora, e o menino resolveu caminhar lentamente, sentindo as gotas
evaporarem-se em seu rosto e molharem sua franja. Seu irmão estudava por perto
e não havia pressa, ele simplesmente andava olhando para os pôsteres e cartazes
nos muros de teatros e cinemas, admirando-os.
Mais a frente, já perto da
escola, um deles, especialmente, chamou sua atenção.
O fundo roxo
destacava-se dos enormes rostos de atrizes famosas grudados na parede. Pietro
atravessou a rua e leu as informações mais de perto: Era a propaganda de um
show de mágica que aconteceria naquela semana, naquele lugar, com uma suposta
celebridade do “mundo do ilusionismo”. As esperanças de Pietro se dissiparam.
Apesar de sempre amar mágica, era estupidamente fácil para ele descobrir como todos os truques eram feitos, o que destruía e pisoteava toda a emoção de sentar-se na platéia, o sentimento de ser uma criança novamente, vendo um objeto desaparecer inexplicavelmente. Ele pegaria alguns panfletos e esqueceria no bolso, ou veria a apresentação se não tivesse nada para fazer e voltaria para casa se perguntando como aquelas pessoas deixavam-se enganar tão fácil, era sempre assim.
Enquanto fechava o compartimento da bolsa, Pietro saiu andando de cabeça abaixada, agora
desviando da chuva que era mais forte.
Tentou tanto se esconder da água que não notou o homem saindo do prédio,
abrindo a porta em seu lado. Acabaram se esbarrando, e Pietro derrubou o
guarda-chuva do outro.
Ao virar-se para pedir desculpas, vislumbrou aquele em sua frente. Ele trajava um sobretudo negro, com um colete roxo listrado por baixo, o que o dava a impressão de ser ainda mais alto. E seu cabelo estava bagunçado, mas mesmo na luz fraca da tarde foi possível ver as madeixas loiras por baixo da cartola. Era uma figura excêntrica, um mágico.
Pietro ficou
hipnotizado pelos broches no peito do homem, os botões detalhados da roupa e
principalmente pela maquiagem negra ao redor dos olhos verdes do mesmo, e ao
pegar o guarda-chuva, que tinha uma ponta tão afiada que era capaz de furar que
se colocasse em seu caminho, o encarou por longos segundos, imaginando para que
alguém usaria aquilo. Foi quando o dono do objeto pigarreou, quebrando o
silêncio da situação.
Acordando de seu devaneio, Pietro devolveu o guarda-chuva, se despediu com um aceno rápido que expressava um claro “me desculpe” e, sem encarar o homem na sua frente, correu para longe, cobrindo a cabeça com a pasta marrom que levava.
...
Yan estava
saindo de seu hotel numa tarde chuvosa quando um menino, talvez 5 anos mais
novo que ele, esbarrou em si e jogou seu guarda-chuva no chão.
Ele já ia xingar o rapaz quando notou que o mesmo agora o encarava, provavelmente curioso sobre o risco negro embaixo de seus olhos. E então, pouco depois, o rapaz se abaixou e pegou o objeto no chão, quase devorando-o com os olhos, provavelmente se perguntando por que a ponta parecia mais uma faca.
Yan continuou
observando-o. Ele tinha um cabelo castanho com uma franja que cobria toda a
testa, jogada de lado, e seus olhos eram ridiculamente claros, mesmo que não houvesse luz
alguma refletindo neles. O único pensamento do homem naquele momento foi que
nunca havia tido uma mulher com um rosto tão delicado, nem com íris tão
vibrantes.
No mesmo momento em que pensou, Yan se surpreendeu com sua própria imaginação e acabou pigarreando, o que talvez tenha soado rude para o menino, que o entregou o objeto e saiu correndo.
Ao que tudo
indicava, pelo panfleto que caiu da mochila do rapaz quando este foi embora, eles
se veriam novamente na mesma semana, em dois dias exatamente.
E a mente perversa de Yan Mcklein mal podia esperar por isso.
E a mente perversa de Yan Mcklein mal podia esperar por isso.
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